Viagem dos sonhos: a história da Júlia

30 abril 2013


Não sabia que era possível esse negócio de se apaixonar por um lugar, até visitar a Itália. Antes, nunca havia criado nenhum vínculo emocional, ou qualquer outra coisa, com algum lugar (além do típico “não há lugar como o nosso lar” e derivados). Mas aí eu coloquei meus pés em Roma, e essa cidade meio que me virou de ponta-cabeça.

Apesar de ter algumas ideias prévias do que encontraria lá, não esperava que eu me surpreendesse tanto. Passados um ano e alguns meses desde o nosso primeiro (e único) encontro, eu tive a agradável surpresa de elegê-la como minha cidade favorita, apesar de, nesse ínterim, já ter conhecido alguns outros lugares tão lindos quanto.

Essa (primeira) viagem me fez perceber o quão legal é, de fato, conhecer uma cidade. Pegar um tempo para explorá-la. Decorar os detalhes das ruas, atalhos, e, depois de alguns dias, deixar o mapa no bolso e conseguir se virar super bem – foi essa a relação que eu desenvolvi com Roma. Quase uma paixão platônica, nascida de uma vontade imensa de falar italiano, ela foi escolhida como destino da nossa primeira viagem em família.

Minha primeira impressão, com os pés já na cidade, foi que, talvez, ela fosse demais para mim. Demais porque parecia, no início, que havia tanta coisa para fazer e conhecer que eu não ia dar conta. E ela realmente é tudo isso, se a gente for parar para pensar. É claro que há quem diga que dá para ter uma boa noção da cidade em poucos dias, e realmente dá, mas a minha conexão com todo aquele centro histórico milenar maravilhoso foi além – os quatorze dias recortados que passamos lá foram, talvez, o suficiente para eu ter certeza que gostaria de voltar muitas e muitas vezes.

É inexplicável lembrar o que eu senti enquanto descíamos uma rua enquanto a figura do Coliseu surgia, lentamente, na nossa frente. Foi mágico parar ali, diante de algo que foi construído há quase dois mil anos e não me sentir, no mínimo, impressionada, ou subir aquelas escadas inclinadas imaginando que, muuuuitos anos atrás, os romanos faziam aquele mesmo trajeto, só que para assistir a galera se digladiar.

Quando eu me lembro das coisas que eu mais gostei, me vem à cabeça a vista ali do alto da Trinità Del Mondi, e, rodando os olhos um pouco mais abaixo, com a linda (mesmo no inverno!) Piazza di Spagna. Visitar pela primeira vez o Panteão foi diferente, porque ele quase se contradiz quando a gente percebe que é uma construção de inspiração Greco-romana transformada em um templo católico. As ruas minúsculas e fofas que levam à Fontana de Trevi também são inesquecíveis, e a gente, se perdendo na paisagem, quase esquecia que tinha medo de morrer atropelado com aquele trânsito caótico. Outra situação onde a gente quase se perdeu (porque, infelizmente, os mapas não são fiéis) foi tentando encontrar a Piazza Navona, e, quando encontramos, foi quase como se afogar num mar de artistas, que estavam no meio da
piazza, vendendo seus quadros, num domingo de sol.

Ainda que eu não seja muito religiosa, não consegui me aguentar e entrei em quase todas as igrejas que eu vi pela frente, mas só fiz isso porque as igrejas lá são incríveis (sério, incríveis mesmo), e dá para encontrar vários túmulos de personalidades históricas legais (da época que ainda enterravam gente em igreja). Até nos arriscamos e assistimos uma missa na Chiesa Del Gesú (que tem um dos tetos mais incríveis que eu já vi, e inclusive um espelho no meio da Igreja para que a gente possa admirá-lo sem cansar o pescoço), e foi uma experiência única. E digo que as missas de lá são bem mais rápidas do que as das igrejas daqui!

Uma das coisas que eu não tinha programado – até foi uma descoberta do meu pai – foi fazer um passeio pela região da Piazza Barberini (tem a Fontana de Tritone, de inspiração barroca), entrar na Via Veneto e se deparar com uma igreja que, à primeira vista parece um pouco sem graça (e comparada com algumas que a gente visita em Roma, realmente é), mas ela esconde uma cripta que, a meu ver, é imperdível.

A Cripta, ou Capela dos Ossos, fica no subterrâneo da Igreja. Quando você entra, te explicam que você não pode tirar nenhuma foto ou vídeo, e deixam recomendado que as crianças não tenham acesso ao local. Como lá é bem escuro, não dava para saber muito bem o que ia encontrar, porque é basicamente um corredor dividido em cinco câmaras. Só que, ao analisá-las, individualmente, encontramos, em cada uma, uma espécie de obra de arte feita com ossos e múmias de frades cappuccinos (sim, múmias usando mantos) – e até os lustres que iluminam cada divisão são feitos de ossos!

O macabro está que, quando a gente alcança a última câmara, somos lembrados, tipo um
memento mori, de que, um dia, seremos ossos, como eles. Isso porque lá tem uma placa em três idiomas falando: “O que você é agora, nós um dia fomos; o que somos agora, você será um dia”. Pesquisando, dá para descobrir que aquelas “obras de arte” (acho que posso chamar assim?) foram montadas com os esqueletos de cerca de 4.000 frades enterrados naquelas imediações, entre os séculos XIV-XVIII. Posso dizer que, depois daquele passeio, meu dia meio que perdeu o sentido, porque é um ambiente bem carregado, e, bom, tive alguns pesadelos depois (quem nunca?), mas valeu totalmente a pena.

Minha viagem, em resumo, foi incrível. Passamos por coisas inimagináveis (tipo a maior nevasca da Europa em 25 anos – Roma embaixo de neve também é tudo lindo e tudo de bom!), e por alguns imprevistos, mas nem tudo sai sempre de acordo com o planejado – e, algumas vezes, é isso o que torna as coisas mais legais – tipo ok, aconteceram imprevistos, mas deu tudo certo no final! Acho que Roma me fez perder um pouco o medo que eu tinha antes de viajar, e a maior lição que eu tirei de tudo isso é: não é porque é difícil, ou porque temos medo, ou porque nos sentimos inseguros que devemos deixar de tentar. Acho que, às vezes, nosso maior inimigo, que nos impede de realizar os nossos sonhos somos nós, e tá aí algo que nunca pode acontecer, porque, nas situações mais estranhas, às vezes, a gente se supera.




Júlia Thum Schmidt tem 21 anos, é estudante de Direito e vive em Florianópolis. Você pode encontrá-la no Facebook e no Twitter. Quer sua história publicada aqui também? Basta entrar em contato para mais informações. A intenção é postar pelo menos um relato a cada mês.

10 comentários

  1. Eu também sonho em ir a Itália e agora lendo o post fiquei com mais desejo ainda. Adorei o post viajei com você kkk beijos!
    sweetbulunga.com

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    1. Aconteceu a mesma coisa comigo! Hahaha. Sonho. :(

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  2. Eu estou (re)lendo Anjos e Demônios (Dan Brown) e estou morrendo de vontade de conhecer Roma, e agora eu leio um texto desses.
    Pena que vai demorar para eu conhecer Roma, porque não tenho dinheiro, que quando tiver quero conhecer a o Reino Unido primeiro

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    1. Dica: assistir Rome e/ou The Borgias também só faz a vontade de conhecer Roma crescer! Hahaha. Mas acho que no meu caso vai demorar também. :~

      :*

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  3. awwwww ler textos assim me dão vontade de pegar um avião e viajar pra conhecer esses lugares e ter esses sentimentos ): só falta o dim dim </3
    Seu blog é muito lindo! Beijos

    http://coturnorosachoque.blogspot.com.br/

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    1. Entendo o drama, viu, Stephanie? Hahaha. </3

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  4. Teve alguns pesadelos? Só? Eu tremi de medo aqui só lendo esse pequeno resumo, imagino então quem tenha feito o passeio completo. haha

    Quero muito poder sentir esse mesmo amor que a Júlia tem por Roma depois de voltar da minha querida Londres. :)

    www.whatamandalikes.com

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    1. HUAHUAHUHA, que exagero! XD

      Quando voltar de Londres, não esquece de escrever pra cá contando como foram as tuas sensações. ^^

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