A Faculdade de Moda e Eu

12 agosto 2014


Lá no início de 2007, no meu último ano do ensino médio, a pressão para a escolha da minha futura profissão aumentou. Assim como grande parte das pessoas nesta idade, eu não fazia a mínima ideia do que eu queria fazer, eram muitas opções e pouco talento ou vontade pra qualquer coisa.

É importante ressaltar que eu sempre tive problemas com atenção, durante as aulas isto se manifestava fortemente no formato de desenhos nos cantos dos meus cadernos. Como eu sempre me interessei por moda, num senso vago, e como eu não tinha noção do que queria fazer, resolvi usar estes desenhos como motivação para me inscrever num curso de Desenho e Criação de Moda só pra ver no que dava.

No curso, eu tive contato com alunas e professoras de Design de Moda, o que me levou a pesquisar quais as universidades que ofereciam este curso na minha cidade ou na região metropolitana, e também a comparar grades curriculares para saber qual curso era o mais completo. No fim, acabei por me decidir por prestar vestibular para Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis.

O começo

Nos primeiros semestres era tudo uma maravilha. Aprender História da Arte e ter aulas com pessoas criativas todos os dias era como um sonho pra mim. Mas aos poucos, fui vendo que criatividade e inspiração eram as coisas menos importantes no curso. Pesquisas, desenhos e aulas instigantes eram maneiros; fofocas, professores egocêntricos e assuntos vazios nem tanto.

Era um curso novo, a minha turma era recém a terceira naquela faculdade, então muitos de nossos professores não tinham formação nem interesse em moda. Eram professores de design gráfico e de produto, ou então de artes, que obviamente estavam lá pelo dinheiro e se claramente se consideravam superiores ao curso. Muitos colegas estavam lá porque gostavam de comprar roupas, achavam que tinham muito estilo ou queriam trabalhar na Vogue.

Como vocês devem imaginar, o curso não consistia em comprar roupas, ter estilo nem muito menos dava oportunidade de trabalhar na revista de moda mais influente do mundo. Ele buscava dar ao aluno bagagem intelectual e histórica para desenvolver suas criações, entender as mecânicas da indústria da moda, além de aprender ética, marketing e outros assuntos pertinentes. Esse nunca foi o problema do curso pra mim.

Choque de realidade

O problema é que a maior parte dos professores parecia estar mais interessado em seus projetos próprios fora da faculdade ou até mesmo dentro, como cursos de extensão. Diversos colegas, em aulas de projeto, claramente pagavam para que outras pessoas desenvolvessem suas criações, fizessem seus desenhos e até mesmo montassem seus portifólios, e muitos professores não faziam nada quanto a isso, apenas atribuíam notas a trabalhos que nem eram de seus alunos.

Sempre fui uma pessoa muito questionadora e este tipo de situação estava me incomodando. Numa das poucas chances que tive de falar sobre isso, num simpósio de moda, fui hostilizada por professoras que estavam presentes e depois ainda tivemos que ouvir do coordenador do curso sobre como é ruim criticar a instituição em que estamos estudando, mesmo que esta não esteja oferecendo a qualidade de ensino que deveria.

A partir deste momento, eu, que já não estava mais empolgada com a faculdade, comecei a empurrar o curso com a barriga. Fazia menos classes por semestre, não me dedicava tanto aos trabalhos por saber como eles seriam avaliados, fui me distanciando. De vez em quando, surgia algum projeto ou algum concurso que me chamavam a atenção, mas logo me desligava novamente. Minha mãe me dizia para eu largar logo e fazer algo que eu realmente gostasse, mas eu tinha enfiado na minha cabeça que tinha que me formar e que faltava pouco.

Tentativa de reconciliação

Fiz um intercâmbio para os Estados Unidos pra ver se outros ares me ajudariam. Voltei pro Brasil, comecei a trabalhar e continuei assim até o início do ano passado. Só faltava o TCC, finalmente iria poder me livrar da faculdade e focar em outra coisa. Só que não. Escolhi um tema mais teórico para o meu TCC, os professores queriam um tema prático, chegamos no final do semestre e meu orientador me disse que eu estava reprovada no projeto de TCC porque o meu tema era muito “complexo e polêmico” para uma graduação, e que eu deveria utiliza-lo como tema de mestrado.

Enfim, o fim

Já estava com a viagem para Londres chegando, neste ponto. Durante a viagem, eu e a Mylla conversamos muito sobre a vontade comum de cursar Jornalismo. Ela também estava bastante insatisfeita com a faculdade que estava cursando no momento. Quando voltei para o Brasil, tranquei a faculdade de Moda e disse adeus. Percebi que aquilo realmente não era pra mim e que só voltaria a trabalhar com moda como espectadora, não como criadora.

Não falo disso para desencorajar ninguém que pense seguir essa carreia. Esta foi apenas a minha experiência e conheço pessoas que seguiram em frente com o curso e estão amando trabalhar com isso. O que eu quero é que as pessoas não entrem num curso esperando o mundo, e muito menos entrem neste curso em específico esperando glamour. Se vocês estiverem com vontade de largar o curso, como eu tive, não façam como eu. Parem e pensem o que vocês realmente querem, porque tempo é precioso e a gente não tem como voltar atrás e fazer de novo.

2 comentários

  1. ótimo texto, eu até hoje não sei o que eu quero fazer exatamente por esses detalhezinhos: tudo que eu quero sempre vem alguém dar uma desmotivada basica falando sobre os problemas do curso e etc. hahaha não foi o caso do seu texto, porque eu nem ao menos tenho vontade de fazer moda. Mas esse texto serviu pra me fazer pensar melhor quanto ao que eu realmente quero. afinal a gente não pode ficar tentando decidir o que quer da vida, a vida inteira né?!
    bjs
    adoravelrebeldia.blogspot.com.br

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    1. Que bom que gostou, Letícia. Mas é isso mesmo, não dá pra ficar perdendo tempo fazendo o que não gosta. :)
      Beijos.

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